January 28, 2025
A tecnologia Chinesa da DeepSeek não é apenas uma evolução tecnológica, é um ataque político
Nos últimos dias tenho visto o discurso sobre a DeepSeek explodir a um nível muito mais amplificado do que era expectável para um lançamento de um modelo AI. Toda a gente tem algo a dizer, desde pessoas que sigo do mundo político (que nunca quiseram nada a ver com AI) até ao Público meter várias notícias sobre o tema na sua página principal. Até o meu avô de 80 anos me veio perguntar, “já que és assim das tecnologias”, o que era a DeepSeek e porque é que importa tanto.
A principal razão pela atenção súbita à DeepSeek é estar a ser culpada pelo crash de ontem na bolsa financeira Americana. O S&P 500 é a cotação das 500 maiores empresas Americanas, e está (estava?) a ser carregada pela Big Tech.

Deste top 7 (que formam quase 50% do ganho total da bolsa) há uma empresa que se destaca, porque mais nenhuma sequer chega perto. A Nvidia é a principal fabricante dos GPUs necessários para treinar e utilizar AI. Todas as empresas como a OpenAI, Google, Anthropic ou Meta estão dependentes dos GPUs produzidos, e como é expectável que AI seja a tecnologia mais valiosa da próxima década, é normal que a fonte do motor de AI esteja valorizado a este ponto. Era (até agora) entendido entre os tecnólogos dominantes que criar e utilizar modelos de AI é, devido ao preço dos GPUs, algo muito muito caro.
A capacidade de criação e disponibilização de AI (capacidade de computação), é medida em GPUs. É uma das formas como as empresas de AI concorrem entre si. É por isso que é uma notícia cada vez que uma destas empresas anuncia um novo datacenter, com mais algumas centenas de milhares de GPUs — com uma etiqueta de centenas de milhões de doláres. É também por isso que o governo Americano anunciou um investimento ridículo de 500 mil milhões para o sector, e mais do que isso, proibiu a exportação de GPUs para a China. Esta tecnologia é tão importante que os governantes Americanos recusam-se permitir que os seus adversários geopolíticos tenham acesso, tal como durante a Idade Atómica, foi proibida a exportação de urânio para países pouco amigáveis aos interesses Americanos. As “Chip Wars” alargam-se há vários anos, especialmente devido à produção de chips Americanos em Taiwan, território da República da China, que está tecnicamente em guerra com a República Popular da China desde 1927, ano inicial da Guerra Civil Chinesa.
Isto é uma tentativa de cortar as asas aos cientistas e engenheiros Chineses, para garantir que os modelos AI lá desenvolvidos nunca iriam ser capazes de concorrer contra a tecnologia Americana. Claramente, não funcionou.
Há dois motivos pelo qual o DeepThink-R1 foi tão catastrófico para o modelo económico americano
1 - É um modelo barato
Devido à conta astronómica que as empresas de AI têm que pagar à Nvidia, precisam de cobrar bem aos seus clientes. É por isto que a OpenAI começou recentemente a cobrar $200 ao mês pelo acesso ao seu modelo mais avançado (o1-pro), face um nível de $20 ao mês por acesso limitado a alguns modelos mais recentes (o1 e o1-mini) e uma free tier para o pessoal que não quer pagar nada poder usar modelos antigos e ultrapassados como o gpt-4o.
Mas a DeepSeek criou o DeepThink-R1 com uma fração da capacidade de computação das empresas Americanas, exatamente como consequência da China estar sancionada. Por apenas terem GPUs antigos e estarem limitados em termos de puros “cavalos”, os chineses tiveram que estudar de uma forma extremamente profunda como estes modelos funcionam, para os poderem treinar e utilizar da forma mais eficiente possível. Isto é algo que os americanos nunca tiveram que fazer, por serem absurdamente ricos a nível de dinheiro e de hardware.
Como é tão mais barato, conseguem disponibilizar o acesso a este modelo avançado de graça, a qualquer pessoa que entre no site deles. O R1 não é tão potente como o o1, mas custou uma fração do investimento dos Americanos. Para os utilizadores, a DeepSeek oferece ~90% do desempenho do o1, por 5% do custo. É o equivalente de os Chineses inventarem um supercarro que seja quase tão rápido como um Bugatti, mas pelo preço de um Opel Corsa.
O preço que utilizadores avançados como programadores têm de pagar para utilizar os diferentes modelos no API. A diferença é esmagadora, sendo que há tanta gente a usar o R1 que os servidores estão sobrecarregados e eu já não consigo usá-lo para programar. Eu já usava isto antes de vocês, não me fodam o sistema, voltem lá pro chatgpt sff.
Isto rebentou com a ideia de que esta tecnologia é proibitivamente cara, logo ao mesmo tempo que a OpenAI anuncia um investimento de 500 mil milhões de doláres (comparável ao programa Apollo ou ao projeto Manhattan) da administração Trump. Agora percebemos que os laboratórios Americanos não estão na ponta da indústria por serem mais inteligentes ou criativos, mas por terem mais recursos, e poderem desperdiçá-los com técnicas ineficientes de engenharia. Os investidores — que estão neste momento a atirar-lhes quantidades ridículas de dinheiro — são obrigados a ter isso em conta.
2 - É um modelo livre
Mais importante que ser barato, é o facto de que o R1 é um modelo livre. Isto quer dizer que a programação base do modelo foi publicada para qualquer interessado poder investigar como o modelo funciona — e copiá-lo. Isto não acontece com os modelos fechados da OpenAI (ou com os de qualquer laboratório Americano com excepção da Meta de Mark Zuckerberg). Permitem-te utilizar o R1 como um modelo local: significa que, em vez de ter que pagar uma renda à OpenAI, podes simplesmente fazer uma cópia dele para o teu computador, e utilizá-lo com a tua própria placa gráfica, sem pagar nada a ninguém. Além disso, podes também utilizá-lo como base para desenvolver o teu próprio modelo.
Também isto é um golpe contra a OpenAI, que esperava ter um monopólio na distribuição e utilização destes modelos avançados, devido ao controlo que tem sobre modelos fechados. O R1 não é um exemplo único, sendo que a semana passada a ByteDance (empresa do TikTok) lançou um modelo que concorre com (e é para certos casos melhor que) os modelos fechados da OpenAI e da Anthropic, líderes da indústria. Hoje aconteceu o mesmo com o Qwen2.5-VL, um modelo visual melhor do que os americanos, feito pela Alibaba (imagina usar AI do Aliexpress). Todos estes modelos chineses são livres e open-source. O Partido Comunista da China já veio dizer que apoia este caminho, e que a China irá continuar a segui-lo este no futuro.
A ironia da democratização
É incrívelmente hilariante ser um governo autoritário como o PCdC a demonstrar esta atitude de democratização da tecnologia. É ainda mais hilariante quando consideras que a tecnologia aberta e democrática era a missão da OpenAI quando foi fundada (daí o nome). Em 2015, os fundadores da OpenAI, nos quais se incluem Sam Altman e Elon Musk, afirmaram que iriam colaborar com outras instituições e investigadores através da publicação das suas patentes e da sua pesquisa. Claramente que isto mudou assim que tocaram num bocadinho de dinheiro. O Elon teve uma guerrazita há uns tempos com a OpenAI precisamente acerca disto, chegou até a metê-los em tribunal por terem abandonado esta missão (os emails que foram publicados pelo tribunal são fantásticos para entender como este mundo funciona, e como os seus players pensam). Claro que o Elon não tem moral para falar, porque passados uns anos, ele fez exatamente o mesmo.
Esta é, para mim, a parte mais importante do ataque Chinês. Modelos mais baratos são fixes, mas modelos livres dão à Democracia a força que precisa para lutar contra o Tecno-Feudalismo.
Tecno-Feudalismo
Quem me dera que os donos da nossa civilização se vestissem assim tão bem.
O Tecno-Feudalismo é uma ideia estruturada por Yanis Varoufakis, político Grego e líder do movimento europeu DiEM25, como o próximo sucessor ao capitalismo atual. Ele alerta que estamos a caminhar para um sistema económico dominado por um pequeno número de corporações gigantes. Armadas com tecnologia exclusiva e infraestrutura monopolista, extraem rendas digitais a uma população dependente dos seus serviços, tal como antes do capitalismo, onde o senhor feudal extraia renda aos servos que trabalhavam nas suas terras. A Big Tech hoje é o arquétipo dessa distopia. Os seus modelos são privados e controlados por uma elite corporativa que decide quem tem acesso, como os podem usar, e que preço paga pelo privilégio. Mas a DeepSeek, ao publicar o R1 como tecnologia grátis e livre (free as in beer, free as in freedom), rasga este plano. A explosão do R1 não é apenas uma questão de custo ou eficiência. É uma revolução na própria distribuição do poder.
AI livre é o antídoto
A liberdade da Inteligência Artificial não é um detalhe tecnológico, é uma necessidade existencial para a democracia. Modelos fechados, como os da OpenAI, perpetuam uma dependência perversa: utilizadores e governos tornam-se reféns de empresas que podem alterar regras, censurar resultados, ou proibir o acesso num instante. Pior: quando falamos de AGI (Artificial General Intelligence), o problema transcende o económico. Se a primeira entidade inteligente além do ser humano for controlada por um cartel em São Francisco, quem garante que isso seja bom para a humanidade? Quem impede que se torne uma ferramenta de vigilância, manipulação e opressão como nunca antes vista?

“Dentro de menos de um mês, os governos de toda a UE terão o poder de utilizar tecnologias baseadas em IA que permitem seguir os cidadãos em espaços públicos, efetuar vigilância em tempo real para monitorizar os refugiados nas zonas fronteiriças e utilizar ferramentas de reconhecimento facial sobre pessoas suspeitas, com base nas suas opções políticas ou crenças religiosas.” — Público
A Rússia persegue e prende cidadãos que exigem o fim do regime Putin. Na América, centenas de estudantes e docentes de várias universidades foram expulsos e detidos por apoiarem a Palestina contra o genocídio Israelita. A Alemanha investiga, prende e deporta pessoas por publicações pró-Palestina nas redes sociais. O que é que achas que vai acontecer quando este tipo de governos (e até as próprias empresas) utilizarem AGI para vigiar e controlar as opiniões expressas pelos seus cidadãos insatisfeitos? Foi exatamente acerca disto que o Edward Snowden nos avisou.
AI livre é o antídoto. Descentralizar o acesso e o controlo através de modelos abertos permite que grupos pequenos e pessoas individuais participem na definição do futuro da inteligência. O R1 não é perfeito, mas é um modelo de soberania: qualquer utilizador na China, na América ou em Lisboa pode baixá-lo, usá-lo, e treiná-lo com os seus próprios dados, sem pedir licença à “Open”AI ou a qualquer governo. É assim que se impede ao domínio de senhores feudais digitais: não através de regulamentações burocráticas, mas com tecnologia aberta e hardware acessível. Imagina um futuro onde todas as pessoas têm acesso à superinteligência diretamente no seu computador, sem estar controlada por qualquer autoridade ou proprietário.
A ironia é que a China, um Estado autoritário, está a fazer mais pela democratização da AI do que os liberais de Silicon Valley, publicando modelos abertos para todos, enquanto o Sam Altman come 500 mil milhões para construir modelos fechados e mendiga regulações ao governo para proibir AI livre em nome da “segurança”.
Não sejamos ingénuos — o PCdC tem os seus interesses. Mas na batalha contra o tecno-feudalismo, até aliados improváveis são bem-vindos. O futuro da inteligência artificial vai determinar o futuro da civilização humana: não podemos deixar que seja um clube exclusivo para bilionários, políticos e oficiais das forças armadas. Algo tão poderoso — e ao mesmo tempo acessível — tem de ser um bem comum. Tão livre como a luz do sol.